Parto em Casa

Parto em Casa

A procura pelo parto domiciliar tem sido cada vez mais frequente entre casais que desejam viver a experiência de parto humanizado que respeite o protagonismo da mulher e as suas escolhas para o nascimento do filho que vai chegar. A filosofia do parto em casa remonta a uma velha tradição vivida pelas nossas ancestrais, quando o parto era realizado por parteiras e na presença de mulheres que pertenciam ao núcleo familiar, comunidade ou de convivência da parturiente. Respeitando o parir e o nascer enquanto evento biológico e fisiológico. E para isso eram utilizadas técnicas e saberes baseados nas experiências das parteiras, respeitando as especificidades de cada parto e no acolhimento a parturiente. Uma relação intrínseca entre conhecimentos tradicionais, práticas e saberes que são repassados até hoje para as novas gerações de parteiras.

A modernidade chegou e com ela o desenvolvimento técnico-científico institucionalizou o novo cenário do parto e do nascimento. Esse modelo de parto tutelado pelo hospital e centrado na figura do médico implicou na perda do protagonismo e poder de decisão da mulher sobre o próprio corpo.

É fato que o parto é um evento imprevisível, independente do local onde ele aconteça, e tem-se que os avanços da sociedade moderna trouxeram instrumentos significativos na assistência ao parto, tais como as técnicas obstétricas, aparelhos e equipamentos que permitiram nos casos de  emergências a preservação da vida de mãe e bebê.

No entanto, essa mudança de paradigma trazida pela modernidade na assistência ao parto, criou generalizações afetando o atendimento no que diz respeito ao parir e ao nascimento. Procedimentos e protocolos que deveriam ser limitados a determinadas situações em que mãe e bebê realmente necessitavam foram transformados em praticas rotineiras, sem levar em consideração as especificidades e avaliações individualizadas. E como efeito vivemos um cenário obstétrico que tem provocado marcas profundas as experiências de parto. Levando mulheres a vivenciarem intervenções totalmente desnecessárias e desatualizadas, em contraposição as recomendações da Organização Mundial da Saúde- OMS.   

Para entendermos esse cenário e sua complexidade, “em 1993, em Capinas,  é fundada a Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (Rehuna), que atualmente congrega centenas de participantes, entre indivíduos e instituições. A Carta de Campinas, documento fundador da Rehuna, denuncia as circunstâncias de violência e constrangimento em que se dá a assistência, especialmente as condições pouco humanas a que são submetidas mulheres e crianças no momento do nascimento. Considera que no parto vaginal a violência da imposição de rotinas, da posição de parto e das interferências obstétricas desnecessárias, perturbam e inibem o desencadeamento natural dos mecanismos fisiológicos do parto, que passa a ser sinônimo de patologia e de intervenção médica, transformando-se em uma experiência de terror, impotência, alienação e dor. Desta forma, não surpreende que as mulheres introjetem a cesárea como melhor forma de dar à luz, sem medo, sem risco e sem dor”. (DINIZ, 2005)

Nesse cenário, o documentário “O Renascimento do Parto”, filme de Eduardo Chauvet e Érica de Paula,  tem contribuído, sobremaneira, para o acesso a questões inerentes a assistência ao parto, violência obstétrica e levantado discussão que desmitificam o parto normal enquanto um evento marcado pela dor e sofrimento. Devolvendo as mulheres o protagonismo do parir, ressignificando o nascimento como um evento natural e fisiológico, capaz de repercutir positivamente num modelo de sociedade nascida sob o efeito da ocitocina, o hormônio do amor, presente naturalmente no trabalho de parto.

Sendo assim, muitos elementos sobre a humanização do parto foram se entre costurando no que conhecemos hoje como o desejo de um parto natural. E parir em casa tem sido sinônimo de marcar esse lugar por direito pelo respeito a uma experiência de parto sem intervenções desnecessárias, tanto com a mãe quanto com o bebê.  O parto em casa remonta a segurança, acolhimento e o lugar de poder da mulher.

Toda a atmosfera do parto em casa tem como principais características a escolha das pessoas com quem o casal deseja compartilhar essa experiência, a familiaridade com os cheiros, receber o bebê em seu próprio lar, a mulher pode se movimentar, se alimentar e assumir posições favoráveis ao parto e ter acesso ao filho assim que nasce. Bem como, planejar como seu bebê vai ser recebido no mundo aqui fora, a exemplo da iluminação baixa, contato pele a pele, a chamada “hora de ouro” que favorece a amamentação, os benefícios do clampeamento tardio do cordão umbilical e a possibilidade de proporcionar uma transição mais tranquila e respeitosa para o bebê que acabou de nascer.

Além do mais, estudos científicos comprovam que o parto domiciliar para mulheres de baixo risco é tão seguro quanto no ambiente hospitalar. No entanto, se faz necessário que o parto em casa seja planejado e envolva uma equipe multidisciplinar. E essa equipe deve ser composta por profissionais qualificados, desde Doula, Enfermeira Obstetriz e um médico(a) obstetra como buck-up caso haja intercorrência. É importante ressaltar que o casal que deseja ter parto em casa deve traçar um plano de transferência para o hospital ou maternidade junto a sua equipe. Deste modo, a equipe levará em consideração o tempo de deslocamento a maternidade. E essa instituição precisa ser avisada antecipadamente para o caso de haver transferência de emergência.  

 

Autoria: Mãe e Doula Eliene Ueji,  Brasília-DF.

 

 

Referencias:

 

https://revistacrescer.globo.com/Gravidez/Saude/noticia/2019/08/partos-domiciliares-sao-tao-seguros-quanto-partos-hospitalares-mostra-revisao-de-21-estudos-internacionais.html

http://www.maesdepeito.com.br/enfermeira-obstetra-e-obstetriz-quem-sao-essas-profissionais/

https://www.geledes.org.br/arte-de-partejar-o-legado-das-parteiras-tradicionais-como-heranca-ancestral-e-os-impactos-para-saude-das-mulheres/

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